Historiador da Unicap participa de debate na rádio CBN e reflete experiências de cooperação e superação da humanidade ao longo do tempo

Entusiasta da perspectiva da história do tempo presente, o professor do curso de História da Católica Helder Remígio de Amorim analisa os fatos da pandemia do novo coronavírus com um olhar diferenciado: a partir de fatos e experiências do passado em que a humanidade precisou pôr em prática a cooperação entre países e a instituição do Estado de bem-estar social. Recentemente, o historiador concedeu duas entrevistas ao programa Quarentena, da rádio CBN, do Recife, onde debateu assuntos como a crise de 1929, nacionalismos e os desafios da nossa contemporaneidade, além da comparação da Gripe Espanhola com a atual pandemia da Covid-19.

Ao Boletim Unicap, o historiador repercutiu os assuntos abordados nas entrevistas e criticou a concepção do modelo atual de neoliberalismo, sobretudo, na dicotomia da oposição entre a economia e a saúde. “Os discursos negacionistas em torno da pandemia do coronavírus trazem justamente essa falsa oposição. Nós temos que reabrir os estabelecimentos comerciais, reiniciar as atividades econômicas e muitas vezes esse discurso não leva em consideração a vida, a saúde das pessoas, a saúde da sociedade. Então, como vamos construir uma economia com uma sociedade doente?”, indagou o professor, ao parafrasear o pensamento do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.

“Nós sabemos que o sistema capitalista é baseado na distribuição desigual de tudo, inclusive, da oportunidade de viver e de morrer. Aí nós vamos lembrar o filósofo camaronês Achille Mbembe, que é uma figura interessantíssima, que vai desenvolver um conceito chamado necropolítica”, completou Helder, ao falar dessa falsa dicotomia da escolha de vidas e a manutenção das atividades econômicas suspensas em virtude das medidas de contenção à proliferação do novo coronavírus. “Então, o neoliberalismo traz justamente essa lógica do sacrifício de viver e morrer. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais que o outro. Um vai valer mais que o outro. E quem tem menos valor vai ser descartado”, reiterou o professor, ao reforçar que, o estado brasileiro, representado no plano econômico pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes, é adepto dessa visão econômica neoliberal.

Helder Remígio é professor da graduação em História da Unicap

Segundo Helder Remígio, a lógica do estado mínimo, abraçada pelo neoliberalismo, acabou criando um contrassenso, até porque foi com essa lógica que foram desarticulados os sistemas públicos de saúde na Europa, sobretudo na França e no Reino Unido, países que estão sendo fortemente afetados com a propagação do corona. Hoje, o que resta desses sistemas é utilizado para salvar vidas. “Aqui no Brasil, nos últimos quatro anos, tivemos uma série de cortes e ataques ao nosso Sistema Único de Saúde (SUS), que é fundamental para a sociedade brasileira e desde a Constituição de 1988 vem cumprindo esse papel social fundamental”, pontuou ao comparar o estado brasileiro, que, além do SUS, está montando uma rede de hospitais de campanha para tratar os infectados em estado grave pela Covid-19.

“É importante levar em consideração que o neoliberalismo trabalha com a redução do estado, inclusive com os investimentos em ciência, em saúde, em educação, em segurança, terceirizando tudo isso para a iniciativa privada, que não vai ter o mesmo compromisso com o cidadão”, criticou o professor. “Antes de tudo, é importante trazer à tona e de volta a discussão sobre a palavra cidadania, que está atrelada à dimensão democrática do estado. Sobretudo de uma ideia também de estado de bem estar-social que foi desenvolvido no final da Segunda Guerra Mundial e foi preponderante para a recuperação da economia europeia”.

Comparação com a crise de 1929 – Com as projeções de recessão econômica em todo o mundo em virtude da paralisação das atividades comerciais para o controle da pandemia do novo coronavírus, diversos analistas da imprensa comparam esses efeitos com a Grande Depressão, do final dos anos 1920. O professor Helder Remígio ressalta que, apesar das semelhanças, são experiências distintas. “(Durante a gestão do presidente americano Herbert Hoover) Houve uma superprodução da indústria americana, um estímulo muito grande ao crédito, ao consumo, nós tínhamos uma sociedade que havia acabado de sair da Primeira Guerra Mundial. A Europa estava devastada e os Estados Unidos, por sua vez, continuaram produzindo bens duráveis. Isso gerou uma grande especulação financeira e, em outubro de 1929, nós tivemos a queda da Bolsa de Valores de Nova York”.

“Hoje, nós temos uma situação um pouco diferente. Nós não vamos ter o dia que a bolsa vai quebrar. Nós já estamos vivendo uma recessão econômica nos últimos anos. E a pandemia veio justamente nesse cenário de recessão internacional. O Brasil já estava em recessão há quatro anos”, disse o historiador, ao reforçar o quadro de carência internacional de lideranças. “A partir de agora, vai ser necessário, para que a gente não tenha uma situação de ampliação do desemprego, de quebra das bolsas, nós precisaremos de uma cooperação internacional muito forte. O grande problema, como diz o historiador Yuval Harari, em um artigo recente, é que nós estamos em um momento de ausência de lideranças mundiais”.

Para o professor Helder Remígio, o caminho dessa recuperação também seria o desprendimento às normas engessadas da economia.  “Esse é o momento em que nós mais precisamos de cooperação internacional, por exemplo, que o Banco Mundial libere empréstimos, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) perdoe dívidas, que as próprias regras em torno das exigências fiscais para que a economia se mantenha saudável sejam revistas pelo FMI. Nós não vemos uma liderança mundial que possa coordenar isso”, disse o professor, que lembrou da atuação do Papa Francisco nesse sentido, mas que reforça que ele sozinho, em um cenário global, não dará conta. “Então, eu vejo que a maior dificuldade, diante da recessão econômica, que já estamos vivendo, é essa ausência de lideranças internacionais que foque justamente nessa recuperação, nesse limiar da defesa da vida e da recuperação econômica”.

Gripe Espanhola relembrada – Além das comparações com a Grande Depressão, outra comparação, sobretudo em veículos de imprensa e de historiadores, é com a Gripe Espanhola. Assim como o novo coronavírus, a gripe chamou a atenção da comunidade internacional pela alta mortalidade e pela rapidez no contágio em diversos países nos anos 1910. “É preciso pensar na Primeira Guerra mundial, nos deslocamentos de tropas, a rapidez por meio do transporte ferroviário, mas também a vida nas trincheiras”, destaca o professor Helder Remígio. “A Gripe Espanhola não deveria ter esse nome… ela provavelmente surge nos Estados Unidos e foi exportada para a Europa em virtude do grande montante de soldados que passaram a ser enviados, sobretudo a partir de 1917, para os campo de batalha europeus, dos EUA para a Europa, depois que os Estados Unidos entram na guerra. Ela provavelmente surgiu nos Estados Unidos e foi importada pela Europa”.

Agente utiliza máscara ao organizar o trânsito em Nova York, nos Estados Unidos, durante o surto da Gripe Espanhola

O professor também fala da versão em que a gripe teria surgido na região de Étoiles, na França, próximo a um hospital de campanha inglês. “É uma região que se tinha uma granja de galinhas e esse vírus pode ter sido disseminado ali. Ela recebe a alcunha de espanhola justamente pelo fato de que na Espanha não se fazia segredo dos estragos feitos pela epidemia, ao contrário de muitos países que procuraram censurar, esconder essa epidemia que tomava conta dos campos de batalha”, disse Helder, ao falar também das raízes políticas. “A explicação para a alcunha do nome de espanhola também possui raízes políticas, que certamente estão ligadas à posição de neutralidade da Espanha durante a Primeira Guerra. Como setores do governo espanhol tinham certa proximidade com os alemães, então, a Inglaterra tomou a iniciativa de construir de que a gripe era espanhola, vem aí a nomeação da Gripe Espanhola”.

“É importante pensar que, naquele momento, em virtude da necessidade de movimentação das tropas, houve uma disseminação muito rápida do vírus por toda a Europa. Na Inglaterra e no País de Gales chegaram a morrer 200 mil pessoas. Nos Estados Unidos, foram meio milhão de mortos. De certa forma, tivemos duas ondas. A primeira onda foi no início de 1918 e atingiu pessoas com baixa imunidade e segunda onda foi em agosto de 1918, e aí ampliou de uma maneira significativa a epidemia. E atingiu em sua maioria jovens.

No Brasil, a Gripe Espanhola teria chegado por meio de um navio inglês chamado Demerara. Vindo de Lisboa, ele passou pelo Recife, Salvador, Rio de Janeiro até chegar na capital da Argentina, Buenos Aires. Como no momento atual em relação ao corona, alguns duvidaram da força da gripe. “Em 18 de outubro de 1918, por exemplo, uma reportagem em um jornal carioca trazia justamente a ideia de que ‘la dançarina’, como era chamada a Gripe Espanhola, não passava de uma simples influenza. Dias depois, no Hospital do Exército, 440 doentes já estavam internados. Então, em outubro já se falava que a impressão era que o Rio de Janeiro tinha se transformado em um vasto hospital, isso no Correio da Manhã”.

Helder Remígio argumenta que, na época, houve uma forte crise inflacionária e de desabastecimento. “Nos jornais se reclamava muito dos abusos muito grande de comerciantes, de farmacêuticos e até médicos. E o estado não tinha a capacidade de gerir uma crise epidêmica como aquela. Outra diferença: hoje nós temos o SUS, naquele momento nós não tínhamos. Hoje, nós temos uma medicina avançada, naquele momento, não”, reforça, ao falar do quadro no Recife. “É importante lembrar que em 1918 ela vitimou cerca de 34 mil pessoas na cidade. Ela não fazia a escolha de grupos sociais. A grande diferença da crise da Gripe Espanhola de 1918 e o coronavírus de 2020 é que os estados não se anteciparam. Nós hoje praticamos um isolamento social que se antecipou à crise. Isso evitou por um dado momento o aumento do número de infectados e sobretudo o caos na saúde pública, que está começando a acontecer agora”. No mundo inteiro, estima-se que Gripe Espanhola matou 40 milhões de pessoas.

Saiba mais: o professor mantém um canal no Anchor com suas entrevistas e podcasts produzidos para sua aulas. Para conhecer o canal basta clicar aqui.

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