Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste faz caminhada em Alagoas

Em parceria com o Instituto Humanitas Unicap, o Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste (GGPN) fez uma caminhada pelo interior de Alagoas, seguindo a rota do Beato Franciscano. O ponto de partida foi a cidade de Batalha e o destino final foi a Vila de São Francisco, no município de Quebrangulho. A distância percorrida foi de 140 quilômetros.

O GPPN existe há 33 anos e é composto por pessoas de vários Estados. Procura viver uma experiência de seguimento de Jesus, o Nazareno, num compromisso libertador junto aos pobres e oprimidos, num diálogo ecumênico e atitude de entrega, por isso, na peregrinação, caminha só a pé, sem carregar dinheiro e comida pelo caminho. O acolhimento e a partilha sustentam a peregrinação. “Somos acolhidos em sítios, capelas de beira de estrada e centros paroquiais”, detalha um dos coordenadores do GGPN, Artur Peregrino. O grupo formado por 13 peregrinos, sendo dois vocacionados à Companhia de Jesus que estão fazendo uma experiência em Russas – CE, passou por cidades, vilas, escolas, casas de farinha, sítios, roçados e beira de açudes.

A cada peregrinação, o grupo faz um estudo sobre determinado tema. Desta vez o livro O Beato Franciscano (Ed. Fonte Editorial, 2016), fruto de uma dissertação de mestrado em Ciências da Religião defendida na Unicap por Gilvan Neves, foi a bibliografia utilizada. De acordo com o GGPN, a rota desta caminhada teve como objetivo “fazer um resgate histórico da memória do Beato Antônio Franciscano, alargando sua compreensão para além do catolicismo devocional que dentro do movimento de beatas e beatos, no seu contexto, tentaram dar uma resposta concreta as injustiças sofridas pelas populações sertanejas“, disse Artur. “Esse objetivo geral se desenvolveu em objetivos mais delimitados, ligados a aspectos particulares do desafio da construção da paz por meio de uma postura solidária aos oprimidos: promover a solidariedade entre os próprios pobres; promover uma espiritualidade alicerçada na convivência; denunciar as injustiças e apoiar iniciativas de mudanças estruturais”, complementou o professor Arthur.

De acordo com o GPPN, durante a experiência foi abordado o surgimento do movimento de beatas e beatos. “O Nordeste do Brasil é fértil de experiências religiosas com um forte cunho social, sobretudo na segunda metade do século XIX e todo século XX. Entre as mais significativas estão as experiências de Canudos – BA (1893-1897) e Caldeirão – CE (1926-1936)”, ressalta Arthur.

“O movimento de beatos e beatas era uma expressão de um catolicismo vivido pelo povo pobre do interior.  Era, sobretudo um modo de ser Igreja longe dos centros religiosos institucionais que, na época, foram atingidos pelo processo de romanização. Os beatos e beatas eram como xamãs. Consagrados, a serviço dos desvalidos da sociedade ou dos “mal aventurados”, como dizia o beato Antônio Conselheiro de Canudos”.

É dentro desse contexto que surge o Beato Franciscano. Ele atuou no sertão alagoano, logo após a morte do Padre Cícero no Ceará (1934). “O beato se dizia discípulo do Padre Cícero. Naturalmente, com essa devoção e total entrega no serviço aos pobres, acabou criando raízes no coração dos alagoanos”, releva Arthur. O beato inicialmente se estabeleceu em Serrinha, hoje situado no município de Batalha, com intensa vida comunitária. Construiu e fundou a Vila de São Francisco no município de Quebrangulo, também ergueu uma creche e um orfanato. “Padrinho Antônio, como é chamado pelos devotos, foi assassinado em 1954 por questões claramente políticas. O candidato que ganhasse a simpatia do beato tinha, no mínimo, mil votos garantidos. Isso consolidaria uma vitória eleitoral. Como o beato era compadre de um político influente do estado atraiu a ira do seu adversário que mandou matá-lo”, relembra Arthur.

A peregrinação observou as manifestações religiosas ao longo do caminho e uma delas é a tradição do catolicismo popular. “Um exemplo forte foi vivenciar essa expressão no seio da comunidade indígena Xucuru Cariri. O povo Xurucu Cariri foi um ajuntamento de duas vertentes e é formado por 8 aldeias espalhadas no sul do Estado. Vimos que lidar com a religião do povo é uma tarefa instigante e desafiadora”, disse Arthur.

A experiência resultou em várias reflexões para o grupo que fez questão de elenca-las

a. voltar para as comunidades / para a base;

b. dar atenção muito especial as pessoas que nos acolhem na estrada valorizando os lugares visitados (ex. capelas de beira de estrada);

c. aprofundar com mais dedicação as expressões de fé popular em uma atitude de estudo do fenômeno;

d. ajudar as comunidades visitadas a compreender melhor o contexto que estamos vivendo no Brasil (sugestão de leitura: Da escravidão a Lava-jato de Jessé Souza);

e. fortalecer o mergulho étnico racial (afro/ameríndio);

f. encontro com crianças e jovens estudantes (no dizer de uma professora: “vamos transmitir a mensagem dessa peregrinação durante todo ano”;

g. fazer uma ação forte, bem definida em cada peregrinação (a exemplo de uma cisterna que fizemos no regime de mutirão em um sítio, no Sertão de Canudos – BA);

h. cuidar com a revisão de vida individualmente e grupal (a revisão nos ajuda mantermo-nos no caminho).

“A religiosidade popular é uma realidade bastante rica e inesgotável. Às vezes pende para o conservadorismo e às vezes para o protesto social. É preciso ter atitude e ação comprometidas com essa realidade. No dizer de Luiza da Silva, de uma comunidade visitada, Marias Preta, “Deus dá o feijão, a gente tem que cozinhar”, concluiu Artur Peregrino.

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