Alunos de Tecnologias do Design colocam a mão na massa e criam seus próprios móveis

Por Tércio Amaral

O Pavilhão Maker – sede da Unicap-Icam International School – tem se transformado em um verdadeiro laboratório de criatividade durante as aulas da disciplina de Artesania e Prototipagem, do curso de especialização em Tecnologias do Design. Sob a orientação dos professores Adailton Laporte e Karla Burlamaqui, os alunos da especialização estão produzindo móveis desde a concepção do projeto até a execução. Os projetos dialogam com a proposta do curso de criação de uma casa mínima do futuro e são fruto, também, de reflexões teóricas e aportes mercadológicos atuais, como o conceito de cocriação, relacionado a projetos desenvolvidos em conjunto e/ou parceria. Da turma – formada por um público amplo, a exemplo de publicitários, arquitetos e jornalistas – não faltam relatos de que a experiência acadêmica, além de ampliar horizontes, trouxe um outro olhar sobre as próprias casas.

O arquiteto Celso Sales, que tem o escritório de arquitetura no Recife, planejou, junto à sua equipe, o Banco Giro. A intenção do grupo formado por ele, Juliana Rabello, Letícia Falcão e Lilian Oliveira foi criar um artefato compacto, que conseguisse agregar o maior número de elementos e funções possíveis. Proposto pelos professores, o projeto dialogou com o conceito e a produção de um artefato de sentar. “Nosso artefato serve para auxiliar a pessoa no momento de troca dos sapatos, quando ela entra ou sai de casa. Ele tem um espaço abaixo do assento onde a pessoa pode encaixar o sapato, chinelo ou meia. Ele também tem uma haste vertical, onde a pessoa pode pendurar aquela série de objetos que ela carrega quando ela sai de casa”, disse o arquiteto, ao trazer, também, os conceitos de sustentabilidade debatidos no curso. “Entre os objetos, deixamos um espaço para uma garrafinha de água. A gente sempre fala isso no curso: a tendência é cada vez as pessoas usarem menos os copos descartáveis. Então, a gente tem que criar a cultura de sair de casa com sua garrafinha de água. Só que a gente sempre esquece essa garrafinha na cozinha, em qualquer canto. Então, deixando a garrafinha pendurada nesse artefato, na porta de saída, a pessoa já vê o objeto e lembra-se de levá-lo”.

A especialização em Tecnologias do Design, segundo ele, também trouxe esse novo elemento que não foi trabalhado em sua graduação: a marcenaria. Celso é formado em Arquitetura pela UFPE. “Essa é a primeira vez que eu estou trabalhando com marcenaria. Na graduação, a gente não lida com isso. A gente não se aprofunda na chamada arquitetura de interiores. E é um pouco contraditório isso: no mercado de trabalho, para quem está começando a trabalhar com arquitetura, o que mais aparece é projeto de arquitetura de interiores e, consequentemente, de mobiliários”, comentou. “Então, a experiência agora nessa disciplina está sendo bem positiva por isso. A gente começa a entender que as coisas funcionam dessa e daquela maneira e começa a ter luzes sobre possibilidades de mobiliários, de novas tecnologias para aplicar na vida profissional”. Além de contar com a parceria do setor de marcenaria da universidade, os alunos também receberam Equipamentos de Proteção Individual (EPI) do Setor de Segurança e Prevenção de Acidentes da Católica.

Ao lado da professora Karla Burlamaqui, o professor Adailton Laporte está lecionando a disciplina de Artesania e Prototipagem. Ele esclareceu que, além de botar a mão na massa, ou seja, a execução do móvel, os alunos tiveram um percurso teórico que possibilitou pensar nos artefatos que estão produzindo. Entre esses conteúdos, estão aulas de história do mobiliário no Brasil, desde o período colonial até os dias atuais, além de exercícios de criatividade. “Foi bem legal porque eles conseguiram absorver bem realmente, isso acelerou mais o processo criativo deles. Cada equipe apresentou sua proposta dessa peça de sentar e o que é interessante é que os projetos não são muito próximos, não estão muito parecidos. Cada um tem uma proposta bem diferente da outra”, contou. A professora Karla Burlamaqui frisou que a parte teórica ainda incluiu o uso de equipamentos de segurança e conteúdos de design de interiores. “A gente demonstrou como cada máquina funcionava, falamos sobre itens de segurança, sobre como eles podem usar essas mesmas máquinas em casa, além tê-las para continuar projetando mais para frente e fazendo seus próprios móveis”, disse ela.

A coordenadora do curso de Jornalismo da Unicap e Doutora em Design, Carla Patrícia, é uma das alunas da turma. Ela relata que, além do projeto – sua equipe trabalhou no projeto do Banco Maresia – a produção do móvel lhe empolgou para outros projetos pessoais para sua própria casa. “Todo mundo na equipe começou a ficar refletindo muito sobre outros espaços, sobre essa multifuncionalidade, sobre essa casa essencial, sobre um público que consumiria isso. Então, assim, todos da equipe se mostram muito empolgados com essa parte de estar projetando. ‘Eu desenhei, todo mundo desenhou…’. A gente está nessa produção bem colaborativa, dessa cocriação e isso faz pensar nos nossos espaços”, comentou. “Isso nos leva a pensar e fazer uma mesa que tem interseção de outras coisas… de cortarem a madeira para mim e eu poder montar depois. Eu posso projetar algo com mais poesia, com mais humor, que tenha mais a minha cara. Então, tem muito isso, de você entender que esse móvel pode ser a minha cara”.

O Banco Maresia é baseado no conceito de barcos, de redes de pesca, que remete ao balanço do mar. A equipe é formada, além de Carla Patrícia, por Otávio Japiassu, Rodrigo Mathias, Gabriela Meireles e Otto Neuenschwander. “O nosso banco é um banco baú que tem um desenho e tem uma rede embaixo, que você pode levantar a tampa dele para colocar coisas, objetos. Na verdade, ele surgiu de um conceito que a gente aprendeu com a disciplina, a bissociação (ideia criada a partir de vários campos diferentes para produzir novas descobertas)”, comentou. “E aí surgiu uma resposta que foi a bissociação do banco com o barco. Então, foram várias as associações que foram feitas, né? Essa foi a principal. E foi pensando em você ter uma coisa pensando no litoral, de você ter um banco para a área externa, de você poder, se for à área interna, trazer um pouquinho dessa coisa da poesia, da poética, do mar, desse litoral para dentro de casa. Ou mesmo se mora num espaço menor, num apartamento, você botar o banquinho numa varanda”, completou a professora.

Desmistificação – A professora Clarissa Duarte, coordenadora do curso de Tecnologias do Design, destaca que a disciplina de Artesania e Prototipagem tem o papel de desmistificar a nossa dependência de “tecnologias de ponta” para a realização de artefatos e seus processos criativos. “A disciplina permite aos alunos (que não são todos arquitetos e designers) perceberem que é possível idealizar e criar elementos contemporâneos e sustentáveis de modo mais ‘artesanal’ e mesmo intuitivo. A presença do convidado Caio Lobo, administrador e ‘artista de móveis’, veio justamente reforçar essa intenção. Em outras palavras, todas e todos são capazes de realizar suas ideias”.

Ela também destacou a importância da existência de uma marcenaria profissional na Unicap como fator agregador ao curso. “Isso não apenas para possibilitar o empréstimo de maquinários e materiais específicos, mas também para permitir uma troca de experiências a médio e longo prazos entre os integrantes do curso e os funcionários da marcenaria”, relatou. “Tivemos um apoio importante da marcenaria da Católica para esta disciplina, por meio da Divisão de Manutenção Predial (DMP). Não é a primeira vez que eles apoiam atividades relacionadas ao curso de Arquitetura e Urbanismo, dentro do possível eles fazem o melhor para colaborar com a execução de instalações inovadoras e criativas no nosso campus”.

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