A Teologia Simbólica de Máximo Pampaloni

O jesuíta italiano Máximo Pampaloni falou hoje à tarde (20) para alunos da graduação e pós-graduação em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco. O tema da aula especial foi a Teologia Simbólica, um campo que estuda a teologia dos séculos III e V a partir de textos bíblicos e das experiências dos padres em interpretá-los neste momento da história.

Dono de um bom humor cativante e de um português fluente, ele contou que a ligação com o Brasil vem desde os tempos em que fez o magistério (uma das etapas da formação jesuíta) em Cachoeiro de Itapemirim, na Bahia, e a graduação em Teologia no antigo Instituto Santo Inácio (ISI – atual Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia – Faje), em Belo Horizonte, onde foi professor.

Com mestrado e doutorado pelo Pontifício Instituto Oriental, na Itália, Pampaloni vem ao Brasil a cada dois anos. Na Faje ministra a disciplina Teologia Patrística Oriental. Ele conversou com o Boletim Unicap durante o intervalo da atividade de hoje. Confira abaixo os principais trechos.

Boletim Unicap – O que é exatamente a Teologia Simbólica?

Máximo Pampaloni – A Teologia Simbólica outra coisa não é se não o resgate, a recuperação da maneira de fazer teologia que era dos santos padres e também dos autores medievais. Nós ficamos, depois do Século XVI, “reféns” de uma maneira racionalista de fazer teologia. A Sagrada Escritura fala por meio de símbolos. Então uma Teologia Simbólica resgata o jeito de falar de Deus da Sagrada Escritura. Não é uma investigação de Deus tentando entender por meio de raciocínio logístico, mas deixar que os símbolos falem diretamente com o nosso coração, com a nossa afetividade. Isso move a nossa vontade e cria aquela vida cristã. Por exemplo, a liturgia é um lugar de símbolos. Então poderíamos dizer que a Teologia Simbólica é também uma Teologia Litúrgica.

Fotos: Carla Siqueira

B.U – E como o senhor percebe este campo na contemporaneidade?

M.P – Estou enxergando este campo teológico como uma emergência neste momento. Nós deixamos toda a Ciência dos Símbolos…deixamos que outros usassem. Veja bem, uma catedral medieval como as que temos muito na Itália, na França…na Europa hoje é incompreensível. Todos os símbolos que tem lá de bichos esquisitos, animais, símbolos astrológicos eram para o medieval um livro que falava da vida, que falava de Deus, que falava da vida cristã. Hoje, para nós, está incompreensível. Essa importância do símbolo foi resgatada nos anos 1930 com autores importantes como René Guénon, só que dentro de um mundo que não é mais aquele cristão, sobretudo a um mundo mais ligado ao esoterismo, em certos aspectos à maçonaria…mas nem sempre porque nem eles…hoje…os maçons mais graúdos não sabem muito desses símbolos deles, mas sobretudo ao mundo islã, do sofismo. Então esse patrimônio que era da gente (se refere à Igreja Católica) nós esquecemos. Agora, uma das crise que eu acho que a Teologia está vivendo e vai, digamos assim, mamando no desconstrucionismo de (Martin) Heidegger, por exemplo. É só olhar para trás e reaprender a falar de teologia como falavam os nossos santos padres e os medievais.

B.U – E qual a relação com a secularização?

M.P – Ter esquecido a linguagem simbólica é uma das coisas que contribuíram para a secularização porque hoje uma Teologia não fala mais ao coração, não fala a sua afetividade, então não fala a sua vontade. Então vira um discurso totalmente estranho, alieno a sua verdadeira vida. Esse autor que estamos trabalhando nesse curso, Efrem de Nísibis, é um poeta do século 4º que faz teologia simbólica por meio da poesia. Então, ele está combatendo os mesmo autores arianos que, contemporaneamente a algumas centenas de quilômetros ao Ocidente, como Gregório Diniz e Basílio Magno estavam trabalhando contra os arianos. Esses padre gregos, peritos na filosofia grega, enfrentam problemas do ponto de vista filosófico. Efrem não vai bater de frente com os hereges, mas sustenta o seu rebanho, o seu povo, a sua comunidade por meio de hinos, por meio de poesias em que passa as verdades da fé de uma maneira que esquenta o coração. Então essas comunidades resistem à penetração das heresias porque sabem e sentem essa presença de Deus. É a mesma coisa na liturgia. Hoje uma liturgia que é toda concentrada na homilia do padre, pelo amor de Deus, ninguém aguenta. Agora, uma liturgia, como por exemplo, as liturgias bizantinas, orientais, que são as que eu trabalho mais…parece que você está mergulhando no mistério, o perfume do incenso, os cantos, as luzes, os ícones fazem com que você mergulhe totalmente numa experiência de transcendência. Esta é a linha simbólica.

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